O que falta para termos um sistema de tipificação de carcaças no Brasil?

Confinamento | 15 de junho de 2012
Por Miguel da Rocha Cavalcanti

 

O que falta para termos um sistema de tipificação de carcaças no Brasil? Essa é uma grande pergunta que me incomoda há tempos. A pecuária está muito mais moderna, eficiente e produtiva. No entanto, um dos principais gargalos para o avanço do nosso setor está na comercialização de gado para abate. A forma como o gado é comercializado indica de forma muito forte para o pecuarista o que ele deve produzir, o que o mercado quer comprar.

Teoricamente faz todo sentido ter um sistema de tipificação no Brasil. E porque não temos? A tecnologia já existe. Já temos máquinas, pessoas treinadas, softwares. Enfim, todas as ferramentas estão disponíveis, inclusive as mais novas tecnologias do mundo já estão por aqui. Falta querer fazer. Falta fazer sentido. Sentido para o mercado, para as empresas.

O primeiro grande problema, que eu desconhecia como entrave a tipificação, é a enorme capacidade de abate do Brasil. Temos hoje mais de 70 milhões de capacidade de abate anual. E abatemos cerca de 40 milhões por ano. Ou seja, temos muito mais plantas frigoríficas do que gado. E planta funcionando vazia, com pouco gado, é mortal para um frigorífico. Em resumo, escala curta acaba com qualquer projeto de qualidade. É melhor para a operação, para a fábrica, para as finanças matar mais bois, mesmo que com menor qualidade, do que poucos bois com alta qualidade.

E porque a escala curta é um grande inimigo de um programa de classificação? Pela cultura do pecuarista, a grande maioria não quer ser descontado. Todos querem prêmio pela qualidade, mas ninguém aceita desconto, redução de preço quando entrega baixa qualidade. Em programas de qualidade, ouvimos que muitos pecuaristas se recusam a participar quando sabem que serão descontados se a qualidade for baixa. Preferem um preço fixo para o bom, médio e ruim. E a junção de cultura do pecuarista com elevada capacidade de abate tem dificultado o avanço dos programas de qualidade.

Outro ponto muito importante é que os frigoríficos já conseguem comprar um percentual pequeno (10-15%) de animais de qualidade. E com esse pequeno percentual, fazem um “garimpo” interno e atendem clientes um pouco mais exigentes.

Com tudo isso contra, existe alguma luz no fim do túnel? Há algo que podemos fazer? Sim, há muito que pode ser feito. E mais incrível, há muito sendo feito hoje.

Tivemos a satisfação de reunir muitos projetos brasileiros de alta qualidade num workshop e webseminário sobre tipificação e comercialização de gado para abate. O que aprendemos?

Primeiro, precisamos estar mais próximos de quem compra e vende. Precisamos aprender mais. Quem vende boi tem que entrar na sala de matança, na sala de desossa, entender por onde o boi dele passa até chegar a dona de casa e ao restaurante. Esse aprendizado ajuda muito. Do outro lado, a mesma coisa. Quem vende carne precisa entrar na sala de desossa, na sala de matança. Precisa ir até a fazenda que produz o boi que vai virar carne, que vai virar churrasco, que vai virar festa.

Além disso, a tecnologia, as máquinas não vão resolver tudo. Temos divergências em relação ao peso da balança, que é algo mecânico, métrico. Outro ponto muito importante é que o repasse das informações da indústria para o produtor. Quanto mais o produtor souber como o boi dele está sendo bem ou mal utilizado dentro do frigorífico, melhor.

O receio de algumas indústrias é repassar essas informações, e ter dificuldade em comprar aqueles 10-15% com qualidade, pagando preço médio. O problema é que isso já está acontecendo.

Como pecuaristas, queremos comer carne de bois capões, com bom acabamento e boa coloração. Mas queremos vender bois inteiros, pois ganham mais peso e custam menos por arroba produzida. Com isso, temos uma tendência em duas direções.

A carne de qualidade melhora a cada dia. Enquanto que a carne comum, bica corrida, vem piorando. Seja por bois inteiros e mal acabados. Ou por problemas como o caroço de algodão mal utilizado.

Aproximar mais indústria e pecuarista é fundamental para caminharmos de forma a atender o consumidor final com excelência. Isso só vai funcionar se houver confiança e ganhos mútuos. Enquanto isso, produtos substitutos e os inimigos da pecuária nadam de braçada, aproveitando nossos escorregões e também o crescimento do mercado consumidor, aqui no Brasil e no mundo afora. O mundo, o Brasil, está consumindo mais. De tudo, inclusive carne bovina. Esse maior mercado não é só volume, mas uma enorme demanda por qualidade.

Há exemplos mundo afora que provam que juntar 1-um sistema de tipificação, que separa o melhor do pior, com 2-maneiras de enviar feedback ao produtor que aquela boiada dele estava entre os melhores (ou entre os piores) a produção muda. A qualidade aumenta. Quando há mercado (e há muito), separar o bom do ruim, pagando diferente, e informando o produtor em que padrão ele se encaixa, tem mudado a forma de se produzir, atendendo muito melhor o consumidor.

E quem vai liderar esse processo? Minha aposta é simples, mas ambiciosa.

Eu acredito que quem poderia liderar esse processo que será fundamental para revolucionar a pecuária de corte são as associações de raça, em especial Nelore, Angus e Hereford.

Essas três raças já tem certificadores trabalhando nos frigoríficos. Pessoas treinadas, capacitadas, fazendo dia após dia um trabalho fundamental. Ou seja, a estrutura já está em grande parte montada. Mas temos três castelos sendo construídos, mas incompletos. Poderíamos construir um só, muito mais forte, robusto e eficiente.

Imagine que “estrago” não seria possível fazer com uma união dos serviços, dos profissionais, das equipes, do conhecimento dessas três associações. Reorganizando os tipificadores, pois não é preciso ter um de cada raça numa mesma planta. Criando um sistema que simplesmente reunisse essas informações coletadas e desse acesso a quem tem direito, e impedisse seu uso indevido a quem não deve acessá-las.

Mais de 90% do esforço já foi feito. Os profissionais já foram contratados, já estão trabalhados. É preciso apenas agrupar e coordenar. Mas essa é uma proposta ambiciosa, pois juntar quem anda separado muitas vezes não é fácil. É um grande desafio, que muito iria contribuir para a pecuária brasileira.

Além disso, com os recentes atritos entre produtores e frigoríficos, em especial o movimento contra o monopólio, criado por algumas entidades preocupadas com o futuro do pecuarista, abriu uma janela de oportunidade para se melhorar o relacionamento produtor-frigorífico e de um problema, está sendo criada uma agenda positiva.

Esse é o momento para ser criar a tipificação no Brasil e minha sugestão, um pouco ousada, é usar as equipes de certificadores das associações de raça que já fazem um trabalho desse tipo.

 

Fonte: BeefPoint

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